se tempo. Agora, no entanto,
tenho menos certezas - abanou gravemente a cabeça.
- O que pode me dizer de sua doença final?
O Grande Meistre abriu as mãos num gesto de
desamparada mágoa:
- Ele veio ter comigo um dia em busca de certo
livro, tão robusto e sadio como sempre, embora me
parecesse que algo o perturbava profundamente. Na
manhã seguinte, estava retorcido de dores, doente
demais para sair da cama. Meistre Colemon pensou
que se tratasse de um calafrio no estômago. O tempo
estivera quente, e a Mão costumava gelar o vinho, o
que pode perturbar a digestão. Quando Lorde Jon
continuou a enfraquecer, fui até ele, mas os deuses
não me concederam o poder de salvá-lo.
- Ouvi dizer que afastou Meistre Colemon.
O aceno do Grande Meistre foi tão lento e deliberado
como geleira se derretendo.
- Sim, o afastei, e temo que a Senhora Lysa nunca me
perdoe. Talvez tivesse cometido um erro, mas
naquele momento foi o que me pareceu melhor.
Meistre Colemon é para mim como um filho, e não há
ninguém que mais estime suas capacidades, mas ele é
jovem, e muitas vezes os jovens não se dão conta da
fragilidade de um corpo mais velho. Ele estava
tratando Lorde Arryn com poções desgastantes e
sumo de pimenta. Temi que pudesse matá-lo.
- Lorde Arryn lhe disse alguma coisa durante suas
últimas horas?
Pycelle enrugou uma sobrancelha.
- No estágio final de sua febre, a Mão gritou várias
vezes o nome Robert, mas eu não saberia dizer se
chamava pelo filho ou pelo rei. A Senhora Lysa não
permitia que seu filho entrasse no quarto, temendo
que também ele caísse doente. O rei veio e ficou
sentado ao lado da cama durante horas, falando e
gracejando de tempos há muito passados, na
esperança de alimentar o ânimo de Lorde Jon. Seu
amor era digno de se ver.
- Nada mais aconteceu? Nenhuma última palavra?
- Quando vi que toda a esperança tinha escapado,
dei à Mão o leite de papoula, para que não sofresse.
Antes de fechar os olhos pela última vez, segredou
algo ao rei, e à senhora sua esposa, uma bênção para
o filho. A semente é forte, ele disse. No fim, seu discurso
estava por demais confuso para ser compreendido. A
morte só chegou na manhã seguinte, mas, depois
disso, Sor Jon ficou em paz. Não voltou a falar.
Ned bebeu mais um pouco de leite, tentando não se
engasgar com sua doçura.
- Pareceu-lhe haver algo de não natural na morte de
Lorde Arryn?
- Não natural? - a voz do idoso meistre era fina como
um suspiro. - Não, não diria isso. Triste, com toda a
certeza. Mas, à sua maneira, a morte é a coisa mais
natural de todas, Lorde Eddard. Jon Arryn agora
descansa em paz, por fim aliviado de seus fardos.
- Essa doença que o acometeu - Ned voltou a falar. -
Alguma vez viu algo de semelhante em outros
homens?
- Sou Grande Meistre dos Sete Reinos há quase
quarenta anos - Pycelle respondeu. - Sob o reinado
do nosso bom Robert, antes dele sob Aerys
Targaryen, sob o pai deste, Jaehaerys Segundo, e até
durante curtos meses sob o reinado do pai de
Jaehaerys, Aegon, o Afortunado, o Quinto de Seu
Nome. Vi mais doença do que gostaria de recordar,
senhor. Digo-lhe apenas isto: cada caso é diferente, e
todos os casos são semelhantes. A morte de Lorde
Jon não foi mais estranha que qualquer outra.
- Sua esposa pensa o contrário.
O Grande Meistre acenou com a cabeça.
- Agora me lembro, a viúva é irmã de sua nobre
esposa. Se se pode perdoar a um velho seu discurso
direto, permita-me que lhe diga que a dor pode
desequilibrar até a mais forte e disciplinada das
mentes, e a da Senhora Lysa nunca foi assim. Desde
o seu último natimorto que vê inimigos em cada
sombra, e a morte do senhor seu esposo a deixou
destroçada e perdida.
- Então, tem total certeza de que Jon Arryn morreu
de uma doença súbita?
- Tenho - Pycelle respondeu gravemente. - Se não
foi doença, meu bom senhor, que mais poderia ser?
- Veneno - sugeriu Ned com a voz calma.
Os olhos sonolentos de Pycelle abriram-se de súbito.
O idoso meistre agitou-se desconfortavelmente no
assento.
- Um pensamento perturbador. Não estamos nas
Cidades Livres, onde tais coisas são comuns. O
Grande Meistre Aethelmure escreveu que todos os
homens carregam o homicídio no coração, mas
mesmo assim o envenenador merece menos que
desprezo - o velho caiu em silêncio por um momento,
pensando de olhos perdidos. - O que está sugerindo é
possível, senhor, mas não penso que seja provável.
Qualquer meistre ignorante conhece os venenos
comuns, e o Senhor Arryn não mostrava nenhum dos
sintomas. E a Mão era amada por todos. Que tipo de
monstro em forma humana se atreveria a assassinar
um senhor tão nobre?
- Tenho ouvido dizer que veneno é uma arma de
mulher.
Pycelle afagou a barba pensativamente.
- É o que se diz. Mulheres, covardes... e eunucos -
limpou a garganta e cuspiu um espesso globo de
muco para os juncos. Acima deles, um corvo grasnou
sonoramente. - Lorde Varys nasceu escravo em Lys,
sabia? Nunca deposite confiança em aranhas, senhor.
Aquilo não era propriamente algo que Ned precisava
que lhe fosse dito. Havia qualquer coisa em Varys